Suis-je romancier?

A questão da vocação em Proust.

 

“Suis-je romancier?”¹

A dúvida de Proust, a criação literária e a psicanálise. 


                                                        Agilberto Calaça Neves

                       Uma introdução

         Instigado pelo repto da Escola Letra Freudiana ao estudo da tarefa do escritor ante à folha em branco, ocorreu-me associar a famosa questão de Proust acerca do seu fazer criativo, que dá título a esse trabalho, à criação literária de um modo geral e  à psicanálise. Afinal de contas, como bem assinalou Barthes, À la recherche du temps perdu  “é a história de uma escrita.”² 

            Em outro lugar,³ aproximei a criação poética em Drummond, sobre o poema da pedra, e o caso do Homem dos ratos, em Freud, ocasião em que salientei, apoiado no dito quase aforístico de Mallarmé: “Poesia não se faz com idéias e sentimentos, faz-se com palavras”, o vínculo inegável entre poesia e psicanálise: a psicanálise também se faz com palavras. Ou, dito mais especificamente, com uma linguagem. Poderia, da mesma forma, aproximar a escrita proustiana por este viés, afinal, Freud, na carta 52 a Fliess,  peocupava-se com o problema da eventual origem sexual das palavras, e o próprio Lacan fez uma torção radical de sua primitiva fórmula postulando agora que não apenas o inconsciente se estrutura como uma linguagem, mas que “... a linguagem é a condição do inconsciente.”4 Esta, sem dúvida, é uma via interessante, entretanto demandaria esforços incomensuráveis para este momento; preferi, então, valer-me de certas analogias entre a vida e a obra de Proust e os conhecimentos hauridos pela psicanálise  para a consecução dos objetivos a que me propus.

            É certo que, quando Proust se questionou: “suis-je  romancier?” - e esta é uma dúvida recorrente – sua monumental obra ainda não havia sido escrita. Também é certo que já tinha fracassado em sua tentativa de ser romancista com Jean Santeuil e Contre Sainte-Beuve.*

 Com a péssima acolhida do primeiro volume da Recherche, editado por conta própria, pois recusado por vários editores, inclusive rejeitado por André Gide, então um dos mais notáveis literatos da França, suas dúvidas intensificaram-se. No entanto, Proust conhecia profundamente os clássicos e os contemporâneos mais expressivos do mundo das letras para saber que um livro como o seu representava uma ruptura da forma e da fôrma do romance tradicional. A questão que ele se faz não se reduz a que o romance poderia ser tomado por um ensaio, crítica literária ou estudo filosófico, mas diz respeito, primordialmente, à dúvida de sua capacidade como criador. E por que isso, já que ele, e somente ele, sabia que estava a introduzir uma nova estrutura romanesca, pois que conhecia o caráter circular de sua obra que só sairia completa após a sua morte?

 

 *Jean Santeuil e Contre Sainte-Beuve, só foram publicados após a morte do autor(1922), respectivamente em 1952 e 1954.

 Esta dúvida, que retroage ao período da sua adolescência, quando escolheu dedicar-se às letras, está magnificamente descrita em À sombra das raparigas em flor, num diálogo do seu alter ego, personagem-narrador, com o sr. de Norpois. Este criticou os dotes literários daquele, tendo em vista a crítica acerba que faz de Bergotte - escritor muito admirado e imitado pelo narrador -, uma nulidade intelectual.

            Bergotte é o que eu chamo um tocador de flautas; cumpre reconhecer aliás que ele a toca agradavelmente, embora com amaneiramento e afetação. Mas enfim não é senão isso, e isso não é grande coisa. Em suas obras sem músculos, jamais se encontraria o que podemos chamar de estrutura. Nenhuma ação, ou pouquíssima, mas principalmente nenhum alcance. Seus livros pecam pela base, ou, antes, não têm base nenhuma.5

            Por ironia, as críticas à Du côté de chez Swann, não são senão as mesmas escritas acima, pela sua própria pena: ausência de um plano no romance, de uma estrutura, além das críticas dirigidas ao próprio autor como um homem mundano, um dândi, frívolo, afetado, incapaz de criar uma obra de arte. Proust deveria então estar vacinado contra elas, porém deixa-se naufragar momentaneamente no mar de dúvidas. Atrevemo-nos a dizer que se o faz, não o é por sua falta de talento, mas sim por seus traços obsessivos neuróticos, que já tinham se manifestado desde sua infância e é retratado na figura do narrador do seu grande romance À la Recherche du temps perdu. A preguiça, a asma, a impotência para escrever, “a falta de talento”, são os sintomas como a inibição se apresenta até serem vencidos por uma necessidade: a necessidade de escrever: L’impuissance d’écrire y est mise en scène: le héros souffre d’une absence de talent, il est souvent prêt à renoncer, mais les moments intenses procurés par le hasard d’une impression sensible relancent le besoin d’écrire, jusqu’à la révélation finale.6 O que são esses  moments intenses procurés par le  hasard d’une impression sensible,  que Proust vem a chamar “memória involuntária”, senão a evocação do Inconsciente, que a psicanálise faz, através das associações livres, única forma de vencer as resistências? A “memória voluntária”, a memória da inteligência, “é comparada por Proust à de virar as páginas de um álbum de fotografias. O material que fornece não contém nada do passado; uma vez removida nossa ansiedade e nosso oportunismo, não passa de uma projeção uniforme e enevoada – isto é, nada”7. Enquanto que a “memória involuntária” , intuitiva, é, como diz Proust,  “uma deflagração total, imediata e deliciosa”8. Como nos fala Beckett, em seu belíssimo ensaio, “Restaura (a memória involuntária) não somente o objeto passado mas também o Lázaro fascinado ou torturado por ele, não somente Lázaro e o objeto, mais porque menos, mais porque subtrai o útil, o oportuno, o acidental, porque em sua chama consumiu o Hábito e seus labores e em seu fulgor revela o que a falsa realidade da experiência não pôde e jamais poderá revelar – o real.”9  É a madeleine embebida em chá, um cheiro de mofo num lavatório público nos Champs Elysées, o som de uma colher contra um prato, o barulho da água nos canos, que vai conduzir toda a trama do livro e que mostra que esta “memória involuntária” é a coisa mais “externa” e casual que possa existir. Para senti-la, vivenciá-la, melhor dizendo, é preciso fazê-lo com um moi créateur, não com o moi intellectuel: “un livre, écrit Proust, est le produit d’un autre moi que celui que nous manifestons dans nos habitudes, dans la societé, dans nos vices. »10 É essa memória involuntária, tão condensada, que poder-se-ia dizer, paradoxalmente, que o romance, apesar de suas mais de 3000 páginas, caberia numa xícara de chá.

            É o artista um ser para os outros, como quer Sartre, ou um ser que tem a possibilidade de viver para si mesmo, como quer Proust ( coincindindo aqui com a afirmação freudiana de um ser que se realiza narcisisticamente no seu ofício)? Talvez os dois:  tomando-se, no caso, a criação artística como “modificações e ocultações” do caráter egoísta das fantasias do artista e do prazer estético oferecido por sua arte, como quer Freud. No caso do escritor, caberiam as perguntas: para quê escrever? O que se escreve ou inscreve? Quero dar satisfações a outros, a um Outro, ou a mim mesmo? Proust responde: Escrevo para mim, para me libertar, escrevo em memória dos meus queridos pais, a quem vou dedicar a obra, e para enfrentar os pesares e os desgostos que antigamente eu lhes causava por perder tempo.11  O escrever como libertação, como expiação, é do que se trata (poder-se-ia perguntar se todo escrever não entranha esses caracteres). Mas também ele dizia que se escrevia por amor: O amor, passe o exagero, o prazer um tanto cravado na carne, ajuda o trabalho das letras porque anula os outros prazeres, por exemplo, os prazeres da sociedade, os que são iguais para toda a gente.12  Ou ainda, escrevia enfronhado com a  morte: A morte tinha-se instalado definitivamente em mim como um amor sabe fazê-lo. Não que eu amasse a morte, detestava-a. Mas pensando de vez em quando nela como uma mulher que ainda não amamos, tal pensamento aderia com maior intensidade à mais funda camada do cérebro, ao ponto de não poder ocupar-me de uma coisa sem essa coisa começar por atravessar a idéia da morte e, mesmo sem eu fazer nada, mantendo-me em total repouso, a idéia da morte tão incessante companhia se tornava como a idéia do eu.13   (grifo nosso) 

             A culpa (a dor), o amor, a morte, eis aí, as motivações aparentes, que vem tomar vulto ao fim da vida do Narrador, na “ revelação” de  Le Temps retrouvé: coroamento da vocação de escritor que se alcança com a renúncia à vida mundana e na assunção da solidão irremediável à qual cada ser está condenado:  Compreendi o significado da morte, do amor e da vocação, das alegrias do espírito e da utilidade da dor”14 (Proust).  Essa compreensão pode ser traduzida como “ não há felicidade na vida, no amor e sim na arte, que é a verdadeira vida”. Isto mostra a doutrina estética de Proust.

            Sua obra foi acusada de não ter estrutura, como já foi falado, e também de não ter um sujeito, por ser contada por um narrador sem nome. Proust numa carta, dizia: Il y a un monsieur qui raconte et qui dit je.15 Efetivamente, se há uma estrutura ela não é linear, sim circular, pouco importando como a lemos; poder-se-ia compará-la com a estrutura folheada do mito, proposta por Lévi-Strauss, em que “cada plano sempre remete a outro plano.”16 Ou, como diria Lacan: cada significante remetendo a outro significante. E o sujeito? Alguns críticos , como Antoine Compagnon, dizia que, além da história de Marcel, era a estética idealista -  o artista mergulhando em si mesmo, descobrindo-se, e contando a história dessa descoberta -   o verdadeiro sujeito do romance. Outros, como Deleuze, notando que o narrador-heroi não funciona como sujeito, fala de “eus larvares” parciais e vai além: “... o sujeito da Recherche não é finalmente nenhum eu, é esse “nós”, um nós impessoal e múltiplo, funcionando por desarranjos e disjunções, verdadeiro corpo sem órgãos.”17   De nossa parte, se trabalhamos com a vertente do inconsciente, que o próprio autor aporta, ao falar de um “moi créateur”,  de um “moi” diferente do “moi social”, podemos postular que o sujeito em questão não é outro senão o sujeito do inconsciente, “... esse outro , como diz Lacan, a quem estou mais ligado que a mim, pois no âmago mais assentido da minha identidade comigo mesmo...”18 Trata-se de um “eu”, de um sujeito, que se dá a conhecer nos enganos, nos comportamentos excêntricos, nas crises de ciúmes, nos acontecimentos mais inesperados da memória involuntária.

Será que o apagamento do sujeito é a condição sine qua non para o surgimento da obra de arte?  Sobre isso, B. Saint Girons, lembra Freud em “Totem e tabu”, segundo o qual “a histeria constituiria a caricatura (Zerrbild) da obra de arte, a neurose obsessiva a caricatura da religião, a paranoia a caricatura do sistema filosófico. O que nos impressiona em primeiro lugar nessa fórmula é o apagamento do sujeito que sublima diante do que Freud chama de os ‘produtos de sublimação’: não são o artista, o fundador da religião ou o filósofo que nos fascinam, é a própria obra que atesta a passagem do gênio humano.”19

Poder-se-ia advertir também em Proust as quatro facetas trabalhadas por Freud em Dostoiévski: o poeta, o neurótico, o moralista, e o pecador. Falar sobre cada uma dessas facetas é tarefa para um outro trabalho; mas ressaltaríamos aqui a grande capacidade de sublimação que se mostra tanto na vida do autor como na do Narrador, atestada pelo sacrifício – a renúncia aos prazeres mundanos - que ambos fazem para dar à luz a Obra, a Arte.

  Por que escrever?  Freud, falando sobre a origem da escrita, diz: La escritura, es originalmente, el lenguaje del ausente; la vivienda, un sucedâneo  del vientre materno, primera morada cuya nostalgia quizá aún persista en nosotros, donde estábamos tan seguros y nos sentíamos tan a gusto20 A “linguagem do ausente”, não há outra expressão mais feliz que essa para falar da escrita.Pode-se encontrar essa razão em Proust. Escreve-se para quem não está presente: para mim que estou alienado de mim mesmo, para quando eu não estiver mais aqui, para os mortos, especialmente os meus pais, para a posteridade, por um desejo assintótico de eternidade como o queriam também Joyce e o Presidente Schreber.

Creio não ser necessário postular uma origem “superior” para o artista, o escritor, e vê-lo como uma “realidade inumana ou sobrenatural”, como queria Jung. O romancista não pode escapar ao seu destino pulsional, como qualquer outro mortal. Agora o que faz com sua especialíssima capacidade de sublimação, esse salto qualitativo que o torna um criador, é ainda um grande mistério até mesmo para a psicanálise. O escritor, a priori, não é um ser etéreo, transcendente, ele só o é após a sua criação. Para Proust, é assim, da “ilusão e decepção; desses dois momentos nasce a verdade, isto é, a escrita”21ou seja, nasce de um ser deste mundo, sujeito às coerções sociais. Sua obra é um manancial para estudos psicanalíticos, já que o sujeito que o escreve é o sujeito do inconsciente. Há muitos caminhos a explorar: narcisismo, fantasia, sublimação, os signos, digo melhor os significantes , os nomes próprios, a negação da morte e do tempo, a doença, o ciúme, a mãe, o pai, o irmão, a avó... Este estudo é uma introdução: sigamos mancando.

 

                                                                       Agilberto Calaça de Neves

 

                        Bibliografia

1-     Le Carnet de 1908, ed. Ph. Kolb, 1976, p. 61, apud Préface de Antoine Compagnon, in Du côté de chez Swann, p. VII, ed. Gallimard, 1988.

2-     Barthes, Roland, O grau zero da escritura, Proust e os nomes, p.143,

Ed. Martins Fontes, 2ª edição, 2004.

3-     Neves, Agilberto Calaça, A psicanálise da pedra – no meio do caminho, trabalho apresentado na Jornada da Letra Freudiana, 2007, inédito.

4-     Lacan, Jacques, L’Étourdit, p. 45, apud Arrivé, Michel in Linguagem e psicanálise - Linguística e inconsciente, p. 109, Jorge Zahar ed., 1999.

5-     Proust, Marcel, À sombra das raparigas em flor, p. 68, ed. Globo, 2006.

6-     Compagnon, Antoine, p. IX, o.c. 

7-     Beckett, Samuel, Proust, p.32, ed. Cosac & Naify, 2003.

8-     Idem, ibidem, p. 33.

9-      Idem, ibidem, p. 33.

10- Compagnon, Antoine, p. XIV, o.c.

11- Proust, Marcel, A raça maldita, p. 19/20, ed. Assírio & Alvim, 2004.

12- Idem, ibidem, p. 104.

13- Idem, ibidem, p. 21/22.

14- Beckett, Samuel, o.c. p. 84.

15- Compagnon, Antoine, o.c. p. VIII.

16- Lévi-Strauss, O cru e o cozido, p. 346, in Haddad Gerard, Comer o livro, p. 104, ed. Companhia de Freud, 2004.

17- Nascimento, Roberto Duarte Santana, Signos deleuzeanos da diferença e as aporias do eu em Proust, p/ internet.

18- Lacan, Jacques, Écrits, apud  Porge, Éric, in Dicionário Enciclopédico de psicanálise, p. 502, Jorge Zahar, ed. 1996.

19- Saint Girons, B., in Dicionário Enciclopédico de psicanálise, p. 500, Jorge Zahar, ed., 1996.

20- Freud, S., El malestar en la cultura, p. 3034, ed. Biblioteca Nueva, tercera edición, 1973.

21- Barthes, Roland, o. c. P. 148

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