Filosofia da Ciência
Filosofia da ciência:
reflexões sobre a realidade
Agilberto Calaça Neves
Isto não é um ensaio!
Magritte poderia explicar com muita
pertinência esta negatividade se fosse tratar de um tema tão equívoco como este
- a “realidade” -, sem a assunção de cientificidade que um ensaio, um
verdadeiro ensaio, poderia tomar. De minha parte, por absoluta incapacidade de
encontrar uma boa explicação, furto-me simplesmente ao escopo ensaístico, e,
“livremente”, ponho-me a pensar, tendo como base as aulas assistidas nessa
matéria, o que se pode entender por esta questão assaz espinhosa. Disse,
livremente, por que não pretendo seguir uma ordem cronológica, histórica ou
qualquer outra a não ser aquela que fira imediatamente a psique, seja por
associação de ideias, seja pela relevância que a memória justifique.
Em primeiro lugar, remeto-me ao conceito do que seja
Realidade: do latim, realitas, de res,
coisa ou conjunto de coisas que têm existência. Dito de outra maneira,
realidade seria o que não é meramente ilusório, mas aquilo que existe, ou é atual. J. Ferreter Mora, em seu monumental
dicionário filosófico, indica que o conceito de realidade é o problema
filosófico por excelência, envolvendo, por equivalência, outros tantos
conceitos como essência, verdade, existência, ser, o que complica sumamente o
nosso trabalho. Até aqui, estamos no âmbito pleno da filosofia, com um cabedal
de conceitos que abrange desde os metafísicos, passando pelos empíricos até os
filósofos pós-modernos, mas sem ainda tocar em outro universo que, sem dúvida,
amplia, diversifica e revira completamente toda a questão, que é o âmbito da
ciência, especialmente da física quântica.
Como seria absolutamente impossível reportar-me, mesmo
esquematicamente, aos conceitos dos pensadores de cada uma dessas tendências,
reporto-me àqueles que, de uma maneira ou outra, ganharam alguma notoriedade,
dentro naturalmente dos meus parcos conhecimentos. Começo por Platão pela sua
alegoria da caverna, do livro A República. Neste mito fica patente a existência (ou poderíamos dizer a
realidade?): de dois mundos: o Mundo visível e o Mundo inteligível. Platão
aponta para uma realidade, a verdadeira realidade, que estaria além daquela que
nos testemunham os sentidos. Uma realidade superior cujas raízes estariam fincadas
na Matemática (a realidade das coisas são triângulos, poliedros regulares),
realidade à qual se chega “sem se servir em nada de qualquer dado sensível, mas
passando das ideias umas às outras, e terminando em ideias”. (A República). Um
mundo só alcançável pela reflexão, pela dialética, o mundo da Essência, da
Verdade, do Justo, da ideia do Bem. O
mundo visível é o mundo em que a realidade não é mais que a sombra dos objetos,
que é mutável, sujeito ao erro, ao vício. Esta é a realidade ética de Platão: a
passagem da sombra à luz. Avistada a ideia do Bem “...compreende-se que ela é
para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela
que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a
senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato
na vida particular e pública” (A República).
Essa questão da existência efetiva do mundo exterior
sempre esteve presente em muitos filósofos idealistas. O mundo é um conjunto de
representações do nosso pensamento? Os objetos do pensamento podem ser
considerados como realidades? No realismo, realismus, em latim, existiria uma
realidade autônoma, cujo conhecimento verdadeiro estaria na correspondência
entre nossos juízos e essa realidade. “As principais dificuldades relacionadas
ao realismo dizem respeito precisamente à possibilidade de acesso a essa
realidade autônoma e predeterminada e à justificação dessa correspondência entre
mente e real” (Japiassú, H.e Marcondes, Danilo).
Para Descartes está muito evidente, como equivalentes, a
existência, a essência, a realidade, a substância, o pensamento, o ser: “Esta
proposição: Eu sou, eu existo, é
necessariamente verdadeira todas as vezes que a pronuncio ou que a concebo em
meu espírito” (Descartes). Ou, ainda: “Sou apenas uma substância cuja essência
ou natureza é apenas a de pensar” (Descartes). Já Spinoza, em sua Ética,
refletindo sobre este tema, diz: “Par réalité et par perfection j’entends la
même chose” (II déf. 6, Ramond Charles),
não entendendo por perfeição, beleza e outras perfeições que normalmente os
homens chamam perfeições por ignorância, mas “... seulement la realité ou
l’être” (PPD I 7 lemme 1 obs. 2 Ramond, Charles). Por essa realidade, Spinoza
compreende a substância única que é
Deus, sendo todas as coisas, inclusive os homens, modos dessa substância. Há
diferenças de monta entre esses dois filósofos, sem dúvida, mas o que há de
comum é que sobre o tema em questão, a realidade é vinculada a uma essência, a
um Deus, embora o Deus de Spinoza não seja um Deus moral, criador e transcendente.
Contra essas especulações,
consideradas vãs e impossíveis de circunscrever, no final do século XVII, surge
uma nova corrente filosófica, o empirismo, segundo a qual todo conhecimento
deriva, direta e indiretamente, da experiência sensível externa ou interna, o
que representava um golpe no matematicismo apriorístico e universal dos metafísicos, especialmente no
racionalismo cartesiano. Locke, um
dos primeiros representantes desse modo de pensar, afirmava que não haveria
ideias inatas, elevando
o Entendimento como objeto de estudo, já que seria a faculdade que permite o
domínio sobre os outros seres sensíveis “e nos permitirá ainda grandes
progressos no conhecimento das restantes coisas” (Ensaio sobre o entendimento
humano). Neste seu Ensaio, explana o
esboço de sua tese do conhecimento: que é formado de ideias adquiridas e não
originárias: ideias relativas às coisas externas que primeiro e mais
frequentemente impressionam os sentidos. Que primeiro se formam ideias
particulares e com elas como que abastecem um armário vazio (tabula rasa, tela
em branco). Alojadas na memória e dando-lhes nomes faz sobre elas abstrações e,
pouco a pouco, aprende a usar nomes gerais. Desta maneira o homem se fornece
com as ideias e palavras que constituem o material sobre que atua a sua
faculdade discursiva. O uso da razão se torna maior, cresce dia a dia. Isto
implica uma nova forma de ver o mundo, de conceituar também a realidade: a
realidade dada pela experiência, pelos sentidos: “nada há na inteligência que,
antes, não tenha estado nos sentidos”.
Kant é tido como o filósofo que
operou uma mudança do eixo na teoria do conhecimento, passando da metafísica do
objeto para a crítica do sujeito. Para ele “ São duas as fontes do conhecimento
humano: a sensibilidade e o entendimento. Através da primeira, os objetos nos
são dados; através do segundo, são pensados. Só pela conjugação desses dois
elementos é possível a experiência do real” (Japiassu H....). A subjetividade
caracteriza a teoria do conhecimento de Kant. Para ele, o espaço e o tempo são
subjetivos, porque não são propriedades dos objetos, não são dados pela
experiência, mas pertencem ao sujeito cognoscente: são formas a priori de sensibilidade.
Wittgenstein teoriza que a
preocupação central da filosofia deve ser a análise da linguagem, através da
qual podemos entender melhor nossa forma de ver a realidade. Em sua primeira
obra, o Tractatus lógico-philosophicus,
a linguagem é vista como tendo uma estrutura lógica do real. Em sua segunda
fase, modifica esse ponto de vista, considerando, contudo, que não há nenhuma essência
definidora da linguagem enquanto tal, prevalecendo os jogos de linguagem, os
usos múltiplos que se fazem de palavras e expressões nos contextos de
comunicação em que se inserem.
Seria ocioso de minha parte e
cansativo para quem houvesse de ler este não-ensaio se continuasse a citar filósofos, sistemas ou
ideias filosóficas dos mais variados teores somente para lhe dar fumos de
erudição, o que não é absolutamente o meu propósito. Na verdade, ao escolher
este tema o fiz por ter-me provocado espanto os desdobramentos que a
neurociência e a mecânica quântica estão a dar sobre aquilo que consideram
realidade. Ao Penso, logo existo, de Descartes, Antonio Damásio (O erro de
Descartes) contrapõe, através de provas (sic), que para pensar tenho primeiro
que existir. Que à concepção filosófica segundo a qual existe uma realidade
exterior, determinada, autônoma, independente do conhecimento que se pode ter
sobre ela, a física quântica diz que a interação na observação altera
substancialmente os elementos quânticos que, segundo a física atual, constituem
tudo o que existe no universo. Ou seja, podemos saber como um “objeto” aparenta
ser após a nossa interferência, mas nunca saberemos como era antes da nossa
observação.
Com a teoria da relatividade geral,
Einstein muda os paradigmas da física clássica quando postulou que o próprio
espaço fosse o meio da gravidade, respondendo sua própria pergunta de como a
gravidade exercia sua influência. Ou seja,
num espaço completamente vazio os objetos se deslocariam livremente em linha
reta; mas a presença de corpos dotados de massa afeta a forma do espaço. O sol,
p.ex., deforma o espaço em suas proximidades, tornando o espaço curvo, em volta
do sol, fazendo a terra e os demais planetas moverem-se em órbitas. E o mais
intrigante, como mostra Brian Greene, em seu belo livro, A realidade oculta:
“Não é só o espaço que se curva; o tempo também o faz (isso é o que se denomina
curvatura do espaço-tempo). Nem o próprio Einstein estava preparado para
reconhecer os grandes avanços desta teoria quando contestou Georges Lemaitre, o
pai do Big Bang, ao afirmar: “Sua matemática está certa, mas sua física é
abominável”. Einstein não queria aceitar a “reescritura dramática da história
da criação” de que o universo estava em expansão. “De acordo com os cálculos de
Lemaitre, o universo teve início como um grão mínimo de densidade assombrosa,
um “átomo primevo”, segundo o nome dado por ele, que se inflou com o tempo e se
transformou no cosmo observável” ( A realidade oculta). Para Einstein, até então, o universo era
eterno e, nas maiores escalas, fixo e imutável. Mas, em 1927, após ouvir uma
conferência mais pormenorizada de Lemaitre, Einstein, foi persuadido e declarou
que aquela era “a explicação mais bela e satisfatória da criação que já ouvi”.
Daí, às elaborações mais avançadas da
física atual, com as contribuições de Neils Bohr, um dos criadores da física
quântica, de Max Plank que desenvolveu a teoria da descontinuidade da energia e
estabeleceu o conceito de quantum, de David Gross e John Schwarz que
desenvolveram a Teoria das Supercordas, de Hugh Everett, físico que defende a
teoria da existência de universos paralelos na explicação da Teoria Quântica, de
Werner Heisenberg, também um dos criadores da atual física quântica e outros,
muitos outros, temos uma visão nova e, paradoxalmente, não tão diferente das proposições mais arquetípicas, para usar
um termo grego, do pensamento platônico, por exemplo. Uma das consequências mais intrigantes da
física quântica é a postulação de multiversos ou de mundos paralelos, de
realidades que se multiplicariam em diversos mundos. “...a teoria
inflacionária, ideia que propõe a ocorrência de um enorme surto de inflação
espacial super-rápida durante os momentos iniciais do universo, gera sua
própria versão de mundos paralelos. Se ela estiver correta, como sugerem as
mais sofisticadas observações astronômicas, o surto que criou nossa região de
espaço pode não ter sido único. Em vez disso, agora mesmo a expansão
inflacionária em âmbitos distantes pode estar criando universos e mais
universos e continuar a fazê-lo por toda eternidade” (A realidade oculta). Que
quer dizer isto? Que a nossa “realidade”, é apenas uma das realidades
possíveis. Ao mesmo tempo em que estou escrevendo este trabalho, outro
Agilberto, em outro universo, resolveu descartar um escrito com tão escassos
dados filosóficos-científicos e escrever uma verdadeira tese; em outro mundo,
outro Agilberto desistiu de escrever seja lá o que for e, sem mais aquela, foi
ao cinema; em outro mundo essa questão (de escrever) jamais foi posta e assim
por diante, indefinidamente. Falei no início deste parágrafo que a visão da
realidade platônica não seria tão divergente como se faz pensar à primeira
vista. No começo deste trabalho a matemática era a essência das coisas (Platão),
passando a ser instrumento de fundamentação das ciências para se chegar à
objetividade, aos fundamentos da realidade (o mundo técnico-científico) e, de
certa forma voltar a ser o conceito maior de realidade na física quântica: “A
realidade é a maneira como a matemática se apresenta” (A realidade oculta). “
(...) A matemática – todos os aspectos
da matemática – é sempre real e independe da materialização. Os diferentes
conjuntos de equações matemáticas são diferentes universos” (idem). Max
Tegmark, do MIT, é mais incisivo: “Se
houvesse alguma característica que distinguisse a matemática do universo , ela
teria de ser de natureza não matemática” ( in A realidade oculta). Como vemos,
então, nessa questão, parece que andamos em círculo e cá estamos de volta ao
início.
Fui mais longe do que queria e menos
claro do que pretendia. Mas que podia querer realmente, na altura dos meus
atuais conhecimentos, ao tratar de um tema tão abstruso como este?
Bibliografia
Foram
consultados os seguintes livros para elaboração deste trabalho: Dicionário
filosófico, Ferreter Mora, J. Ed.
Loyolla; A República, Platão, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 13ª edição;
Ensaio sobre o entendimento humano, Locke, J. Ed. Fundação Calouste Gulbenkian,
4ª edição; A realidade oculta, Brian Greene, Ed. Companhia das Letras; Le
vocabulaire de Spinoza, Charles Ramond, Ed. Ellipses; Dicionário básico de
filosofia, Japiassú, H., Marcondes, D., Ed. Zahar.

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