Lacan : sobre a angústia no masoquismo e no sadismo
A angústia no masoquismo e no sadismo ou a perversão como norma.A
angústia no masoquismo e no sadismo
ou a perversão como norma
Agilberto Calaça Neves
A doxa psicanalítica tradicional afirma que a angústia
é sem objeto, que a angústia sempre é angústia de castração, que a angústia é
um transtorno que obstaculiza o acesso ao real, que a imagem especular é o
protótipo do mundo dos objetos, ou seja, que o mundo está feito de objetos cujo
protótipo é nossa própria imagem, que o corpo só é abordável transformado em
significante, que a criança é um perverso polimorfo, que a neurose é o negativo
da perversão, que o perverso só pensa no próprio gozo e não leva em conta o
Grande Outro, que o perverso estaria livre da angústia, pois desprovido da
instância crítica punitiva, o super-eu.
Esses temas são trazidos à baila, de forma explícita
ou velada, quando se lê o Seminário X, A angústia; são trazidos à baila
justamente pelo novo aporte lógico/topológico de Lacan, de que a angústia longe
de ser algo apenas experimentado, é,
antes de mais nada, algo construído.
É nesse sentido e por essa razão que a primeira parte do título – a angústia no
masoquismo e no sadismo – marca essa inovação teórica, e a segunda – a
perversão como norma – assume uma maior relevância.
Freud, com a publicação de seus Três ensaios, provoca o
que poderíamos chamar uma 1ª ruptura com os estereótipos ideológicos e morais
como era tratada a questão da perversão, ou seja, como a exteriorização do
instinto sexual desconforme com a natureza, sem finalidade reprodutiva, tanto
no que diz respeito ao objeto – o homossexualismo, a zoofilia, o auto-erotismo
- como ao objetivo – “ações perversas”, como o sadismo, o masoquismo, o
fetichismo, o exibicionismo. Nos seus Três
ensaios afirma que a predisposição às perversões era a predisposição
original e universal da pulsão sexual humana, dado que a sexualidade infantil é
de origem uma libido das pulsões parciais com objetos pré-genitais (oral, anal,
escópica e vocal). É importante aqui não confundir pulsão com perversão ou o
polimorfismo perverso da criança com uma verdadeira perversão. Esta primeira
aportação de Freud nesse terreno pantanoso da perversão desviou – para usar um
termo concernente ao assunto- a discussão das considerações morais,
ideológicas, para um plano investigativo que vai se mostrar frutífero ao longo
de todo seu fazer teórico. Inspirado em
Freud, como veremos mais adiante, Lacan operará uma 2ª ruptura, ruptura esta
que vai além de Freud e, mesmo, do próprio Lacan.
Desde os Três
ensaios (1905), passando pela Metapsicologia
(1915-1920), até a 2ª tópica (1920-1938), Freud realizou
avanços significativos na teoria das perversões. A riqueza dessas concepções
elaboradas ao longo da maturidade de Freud, por si só, seriam objeto de longas
dissertações que não caberiam neste curto espaço; por isso tomarei apenas sua
obra Pegan a un niño, de 1919, pelos
subsídios que nos fornecem para estudar a angústia sob os dois fantasmas
perversos apontados por Lacan no Seminário X, a saber: que o masoquismo
feminino é uma fantasia masculina e que a fantasia de D. Juan é uma fantasia
feminina.
Falei acima que Lacan opera uma nova ruptura quando
trata da questão da perversão, principalmente no Seminário X, mas, mais do que
isso, na verdade, neste Seminário, Lacan como que, de uma forma muito sutil,
inicia uma reelaboração de todo seu ensino, fazendo uma revolução no que até
então já estava bem estabelecido. A sua maior contribuição diz respeito à
revisão do conceito de objeto com todas
as conseqüências daí decorrentes, notadamente no que poderíamos chamar do
universo significantizado lacaniano.
Antes de continuar por este caminho quero dizer que,
de uma parte, fui estimulado, durante a
feitura deste trabalho, pelas discussões no cartel e nas conversas informais da
sala de estar da Letra, no que diz respeito às controvérsias levantadas, por
parte dos meus colegas, daquilo que se poderia inferir, como dados de um novo
sistema conceitual trazidos pelo Seminário, A angústia, que a seguir serão
expostos. De outra parte, a perspectiva deste Seminário pela leitura do autor-discípulo-herdeiro,
contemporâneo de Lacan, Jacques-Alain Miller1, que marca - ou
remarca, pois o próprio Lacan assim já o tinha assinalado – novas coordenadas
teórico-clínicas a partir do mesmo, deixaram-me instigado e intrigado pela
audácia interpretativa a que chega.
De onde parte Lacan para reformular seu ensino e
acceder a esta tão propalada topologia?
Não custaria relembrar Freud, que sustenta que o eu, em seu desamparo,
responde com angústia à exigência pulsional constantemente crescente. Segundo
Miller2 esta formulação freudiana seria a base sobre a qual Lacan
construirá sua nova teoria da lógica e da topologia do objeto a: um
novo estatuto de objeto, cuja
estrutura difere da do significante e se constrói de tal forma que é
irredutível a ele. Ora, até então tínhamos um mundo de objetos suscetíveis de
serem significantizados, cuja regência era dada pela significância fálica, um
mundo em que a falta de objeto sempre podia reduzir-se à falta de significante,
era como se o significante estivesse por toda parte e pudesse substituir-se
pela falta. Era o mundo do corpo especular, o do estádio do espelho. No
Seminário da Angústia, Lacan dá ao corpo um novo estatuto que não o especular e
para isto opõe de certa forma a palavra traço à
palavra
corte: “enquanto que traço transforma
em significante o significável, a função de corte
separa um resto que, precisamente, não é significável.”3 E que resto
é esse? Não é um resto oriundo das escaramuças entre a necessidade e a demanda
que é o desejo, um resto ainda significante, mas um resto resultado da
insistência pulsional, na medida que quer satisfazer-se como gozo, um resto
gozo, portanto, irredutível ao significante. É o que Freud chamava der Überschuss, um excesso de libido
inutilizada, que é o núcleo do perigo e que redunda em angústia. Lacan
relaciona aqui o gozo com a angústia tendo por trás a exigência pulsional. Este
novo momento teórico de Lacan, parece-me,
deve-se ler como uma tentativa de ir além da angústia de castração que
marca em Freud o limite da análise, e que marca em Lacan o início do que
poder-se-ia chamar da sua nova topologia. Lacan, como ele mesmo diz, passa de
um sistema a outro, do sistema copernicano ao sistema einsteniano, o que não
significa o abandono do que produziu até então. Trata-se de um novo sistema
cujas equações “ se apóiam naquelas que as precediam, as incluem e as situam
como casos particulares, de modo que as resolvem por inteiro.”4
Miller infere daí que o Seminário X “ leva a cabo ao
mesmo tempo a disjunção do Édipo e da castração, a generalização da castração
sob a forma da separação, e a degradação do falo significante, ao mesmo tempo
que começa a subir ao zênite a função do objeto a.” 5 O objeto
a
é elaborado como uma função generalizada, que não é edípica nem
cronológica, senão topológica e sincrônica. É o que ele chama a desidipinização da castração: é o órgão
separado, que não está separado pela castração “ (...) a angústia de castração
remete fundamentalmente ao princípio da desaparição do órgão fálico no momento
do orgasmo.” 6. Tem-se aqui que o objeto perdido é o que se desprende
da sexuação da vida na medida em que esta se reproduz pela conjunção de dois
sexos. E a angústia joga um papel fundamental nesse sistema, que Lacan opõe ao
que desenvolveu no seminário VIII, onde
predominava a via do amor, que dá acesso ao objeto simbólico, ao falo,
como símbolo do Desejo da Mãe, ao desejo como desejo do Grande Outro; enquanto
que a via da angústia conduz ao objeto real, aponta a conduzir ao objeto da
satisfação, uma satisfação que não é a da necessidade, senão da pulsão, uma
satisfação que é gozo. No 1º movimento do Seminário o objeto precede a
angústia, causa a angústia e no 2º movimento, a angústia produz o objeto –
objeto causa de desejo em oposição ao objeto de desejo, da via do amor. Enfim,
o estatuto da angústia fica bem definido: é, ao mesmo tempo, sinal do real e a
via de acesso ao real. Diferentemente da via do amor, que engana, “ ... a
verdadeira substância da angústia, é o aquilo
que não engana, o que está fora de dúvida.”7
Visto isso, pode-se agora tratar da ruptura operada por
Lacan no que diz respeito às perversões, que, talvez, possa resumir-se no que
se pode chamar o eixo do desejo ao gozo, situando-se a angústia entre os dois
termos. Como se coloca a questão do gozo e do desejo para o perverso? Qual o
papel da angústia na perversão? De saída, Lacan objeta que o perverso visaria
apenas o próprio gozo, senão, muito pelo contrário: “Longe de estar fundada
sobre algum desprezo pelo Grande Outro, a função do perverso é algo que deve
ser avaliada de modo diferentemente rico (...) Ele é aquele que se dedica a
tapar esse furo no Grtande Outro”8. No seu seminário A relação de objeto , Lacan parte do seu
esquema clássico necessidade ,demanda
desejo, onde a demanda é sempre necessidade de amor, onde o Grande Outro da
demanda detém os objetos da satisfação, o objeto adquire o valor de dom
simbólico, de testemunho de amor e se o Grande Outro não dá, então há desamparo
(hilflosigkeit), há angústia por
falta ou perda do objeto. No Seminário da angústia, Lacan parte da mônada
mítica do gozo, onde o dom essencial é o do amor mesmo (nenhum objeto), amar é
dá o que não se tem, o dom essencial é o da falta. Sob esse ponto de vista,
completamente diferente de Freud, a angústia não surge pela perda ou falta do
objeto e sim quando a falta falta, quer dizer, quando há objeto, quando há
muitos objetos. Já no Seminário X, afirma que o desejo no perverso apresenta-se
como uma “subversão da lei”, “suporte de uma lei”, que sua satisfação
irrefreada é uma defesa, “na medida em que esta refreia, suspende, detém o
sujeito no caminho do gozo”.9 Nesse caminho o perverso fracassa como
qualquer outro, deparando-se com seu próprio limite no agenciamento do desejo.
O perverso não sabe a serviço de que gozo exerce sua atividade, ou seja, o
perverso não sabe quem goza. Dessa forma, Lacan mostra que o Grande Outro é
visado, mas, diferentemente das metas manifestas, se se pode dizer assim, no
masoquista e no sádico. Quanto ao masoquista, ao contrário de visar o gozo do
Grande Outro, o que seria uma meta fantasística, Lacan mostra que o que essa
idéia esconde é que, em “última instância”, ele visa realmente a angústia do
Grande Outro. No sádico, analogamente, o que fica evidenciado, é que o sádico
busca a angústia do Grande Outro, mas na verdade, isso mascara é que se trata
do gozo do Grande Outro. O que aparece no nível objetivo de um aparece
escondido no nível secundário do outro. No masoquista há uma ocultação da
angústia e no sádico, do objeto a. Lacan enfatiza que nem por isso o masoquista
é o avesso do sádico, que “não é um par reversível”, que na verdade, a
estrutura é mais complexa, “que se trata de uma função com quatro termos, uma
função quadrada. A passagem de um para outro se faz por uma rotação de um
quarto de volta, e não por alguma simetria ou inversão”.10 De uma
forma puramente mnemônica talvez se possa expressar isso numa fórmula:![]()
![]()

![]()

d (Meta
Fantasística)
![]()

Masoquista
J (A)
Semblante a
a
Sádico
Angústia (A)
![]()
(a)
d
Nessa dialética de mostrar e esconder, o masoquista se
vê como objeto a, aquele que se
apresenta como dejeto, submetido a tudo que vem do Grande Outro como maltrato.
Na verdade, trata-se de uma “mostração”: uma figuração de i de a está em cena:
Na cena o masoquista faz semblante de objeto a , exibe-se como dejeto e mostra, desvela-se, para assegurar o
gozo do Grande Outro. Lacan, mostra, no entanto que sob a barra, ele tenta
produzir a angústia do Grande Outro. O sádico, visa encontrar no Grande Outro o
a, o mais íntimo de seu gozo.
Parece-me, que de alguma forma, o que se passa com o perverso, ilustra também,
o paralelismo das duas correntes que, como diz Freud, não chegam a fundir-se para assegurar “uma
conducta erótica plenamente normal: la corriente “cariñosa” y la corriente
“sensual”.11 Literariamente essa dissociação é expressada em Sade na
boca de Dolmancé, quando diz, reagindo ao pedido de ternura de sua partenaire: “Ora porra! Quem tem tesão
alguma vez é delicado?”12
Esse novo postulado lacaniano falado acima, em que o
objeto fálico e sua falta não estão implicados no sexo feminino, senão em
segundo plano ( “A mulher não lhe falta nada”), provoca a inversão da doxa
analítica: “O homem é carente, por que na copulação ele põe o órgão e se
encontra com - φ, enquanto que a mulher
permanece intacta, intangível, inclusive na copulação.”13 Sob esse
ponto de vista – φ, a detumescência,
complica e limita a relação do homem com o desejo. Dessa forma, a angústia por
parte do homem não está relacionada com a ameaça paterna, senão a um “não
poder”, i. e., a sua relação com um instrumento que falta, pelo menos, que nem
sempre está disponível.
Com essa ordenação, Lacan distingue dois fantasmas
paradigmáticos: um no homem, outro na mulher. O fantasma masculino é do
masoquismo feminino, o masoquismo imputado à mulher, e, na mulher, o fantasma é
o do Don Juan, do homem D. Juan.
O fantasma masculino significa que a incidência do
falo órgão traduz-se no fantasma de uma mulher que seria objeto, um objeto
permanente que gozaria de ser o objeto de gozo do homem e sem limites,
justamente sem os limites que marca indelevelmente o – φ. Isso nos remete, no
homem perverso, ao personagem Séverine, de Masoch, quando se entrega às mãos de
Wanda, a Vênus das peles e de seus outros atributos fetichistas, de que essa
mulher que gozaria sem limites, é na verdade um homem, que, segundo Freud, não
conseguiu “eludir la elección homosexual
de objeto y que no há cambiado de sexo se siente, sin embargo, mujer en sus
fantasias y adorna a la mujer flageladora con atributos y cualidades
masculinas.”14
O
emblema do fantasma feminino seria o Don Juan. Do ponto de vista masculino, uma
mulher gozaria de ser este objeto que pode reparar o – φ que o afeta; e do lado
feminino, a imagem de um homem ao que não faltaria nunca nada. Don Juan é o negativo do – φ, i. e.,
Don Juan é também o sujeito ao que não lhe falta nada. Segundo Lacan colocar
este fantasma como feminino aponta que se trata de um falso homem, um impostor,
o homem marcado pela impostura radical, esse que nega a incidência de – φ e que
se apresenta como instrumento eterno do gozo do outro, o objeto absoluto.
O que está em jogo nesse Seminário X, como vimos, é a
questão do corpo, não como corpo significante, mas como corpo libidinal. Não se
trata apenas de se contentar com a fala e o desejo, mas de alcançar o gozo do
Gozo do Grande Outro, na medida em que no enunciado de Lacan, “ O Outro, no fim
dos fins, vocês ainda não adivinharam, é o corpo 15”, pois só há
gozo do corpo. Quanto a isto, Julien interroga a posição do sujeito na
perversão a partir do Seminário A lógica
do fantasma(1966/1967) : “Ele não se contenta com a fantasia como resposta
à questão do desejo do Grande Outro. Mas o sujeito se faz objeto a serviço do
gozo do Grande Outro16”. É esse devotamento ao gozo do Grande Outro
que nos leva a postular a questão da perversão como norma, norma de uma posição
subjetiva, de uma estrutura, pois não sendo assim, haveria relação sexual,
prevaleceria a similitude em espelho de modo “que um mais um, iguale um. Não, é
impossível. (...) Temos pois, essa definição da perversão com essa proposição
universal: todo gozo fálico é perverso, isto é, estabelece relação sexual
graças ao Grande Outro completo17”. Para encerrar, cito ninguém
menos que Lacan: “Toda sexualidade humana é perversa se seguirmos bem o que diz
Freud18”.
Referências bibliográficas
1 – Miller, Jacques-Alain, La angustia lacaniana, Instituto Clínico de B.
Aires /Paidós
2 – Id, ibidem, p. 90
3 - Id, ibidem, p. 35 (tradução livre de minha
autoria)
4 - Lacan, Jacques, Seminário a angústia, Jorge Zahar, editor, p.
5 - Miller, Jacques-Alain, o.c. p.
63
6 Id, ibidem, p. 64
7 - Lacan, Jacques, o. c. p. 88
8 - Lacan, Jacques, Seminário
De um Outro ao outro, apud Julien, Philippe in Psicose, perversão, neurose,
Companhia de Freud Editora, p. 127
9 - Lacan, Jacques, o. c. p.166
10 – Id, ibidem, p. 196
11 – Freud, Sigmund, Sobre una
degradación General da la vida erótica , Editorial Biblioteca nueva, tercera
edición, p. 1711
12 – Marquês de Sade, A
filosofia na alcova, Global editorial, 1ª edição p. 101
13 – Miller, Jacques-Alain, o. c. p. 53
14 - Freud, Sigmund, Pegan a un niño, Editorial Biblioteca nueva,
tercera edición, p. 2478
15 – Lacan, Jacques, Seminário
A lógica do fantasma, apud Julien, Philippe, o. c. p 127
16 – Id, ibidem
17 – Id, ibidem, p.129
18 – Id, ibidem,
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