L. Wittgenstein: pequena discussão sobre o seguir regras e o argumento contra a possibilidade de uma linguagem privada.

 

                                                        Seguir regras? Linguagem privada?


L. Wittgenstein:  uma pequena discussão sobre seguir regras e o argumento contra a possibilidade de uma linguagem privada.


                                                                                 Agilberto Calaça Neves

 

 

                  Introdução

 

 

          Ludwig Wittgenstein (1889-1951), apresenta-se-nos, aos iniciandos em sua filosofia, como um pensador deveras abstruso, seja pelo enfoque aforístico-lógico-tautológico de sua primeira obra, o Tractatus Logico-philosophicus, que tem como base uma linguagem fenomenológica, primordial, seja por sua chamada fase intermediária em que alguns autores sustentam já uma “ruptura fundamental da história do pensamento filosófico” (Lazerowitz e Ambrose, apud Hintikka e Hintikka), seja, ainda, pelo Wittgenstein tardio do seu Investigações filosóficas (IF), em que, aí, sim, passou a ocupar-se explicitamente de uma linguagem fisicalista (linguagem comum), e do papel que os jogos de linguagem desempenham como os elos semânticos entre a linguagem e a realidade. O percurso do pensamento wittgensteiniano tal como descrito não encontra unanimidade nos estudiosos de sua obra, embora haja muitos pontos consensuais. Uma discordância, apenas para exemplificar: existe uma oposição entre o Wittgenstein inicial, que acreditava em regras estritas da linguagem, e o ultimo que não acreditava?

            É importante fazer esse registro, pois tratar das questões do seguir regras e do argumento contra a possibilidade de uma linguagem privada implica em cotejar a nossa leitura e as discussões ocorridas em sala de aula, com a Profa. Camila Jourdan, da pós graduação: Filosofia moderna e contemporânea, lato sensu, 2012 -, não apenas com a visão de alguns exegetas (considerados mais importantes) da filosofia de Wittgenstein, como também da necessidade de, aqui e acolá, reportarmo-nos aos diversos períodos de sua filosofia, mesmo de forma muito sucinta.

            Antes de nos atermos ao nosso tema específico gostaríamos de especular por qual razão Wittgenstein, após ter escrito o Tractatus, abandonou os estudos filosóficos. Acreditava ter feito a “obra definitiva” em filosofia pela sua abordagem genial de apresentar a linguagem ideal de representação mostrando na estrutura das proposições a estrutura do próprio fato de que a sentença é uma figuração? Ou seja: que as sentenças figuram mesmo a realidade? Que com isso teria resolvido o problema das relações linguagem-mundo? Difícil responder. Sabe-se, no entanto, pelo prefácio de Investigações filosóficas, que a decisão de publicá-lo deveu-se a várias razões: pela má compreensão dos seus estudos desde 1929, quando voltou a se interessar de novo por filosofia, por vaidade, ou talvez, sobretudo, para expor seus novos pensamentos, tendo como pano de fundo, como ele mesmo diz, o Tractatus, expressando o desejo de publicar juntos seus novos aportes com os do seu primeiro trabalho. Na verdade, ainda neste prefácio, reconhece “graves erros” cometidos no Tractatus e agradece as críticas de Frank Ramsey e P. Sraffa que durante anos exerceram influência sobre seu pensamento.

            Dito isto, usaremos como metodologia para o presente trabalho, os apontamentos tomados em aula e como texto básico o livro de Wittgenstein, Investigações filosóficas, tentando seguir, na medida do possível o, vamos dizer assim, roteiro implícito no mesmo, além de uma ou outra literatura secundária, abordando, quase diria, aforisticamente, alguns conceitos básicos, tais quais: concepção agostiniana da linguagem, semelhanças de família, formas de vida, critério, detendo-nos mais nos de regras, e no argumento contra a possibilidade de uma linguagem privada.

 

1.     Crítica da concepção agostiniana da linguagem. O que quer Wittgenstein com essa crítica? Simplesmente estabelecer seus novos aportes à questão da linguagem confrontando-os com o da linguagem tradicionalmente aceita tendo como exemplo-mor a de Santo Agostinho? A crítica do atomismo lógico, da linguagem essencialmente representacional, denotativa, mentalista, cuja função fundamental seria a de representar o mundo? Pode-se ler desta maneira, mas não se pode esquecer o “pano de fundo” do seu novo trabalho: o que estava em jogo para Wittgenstein era a revisão do seu próprio pensamento expresso no Tractatus, uma “virada linguística”: uma filosofia analítica que privilegiava o pragmatismo, uma linguagem como instrumento de ação no mundo não mais como representação, mas uma atividade prática, as formas de vida, os usos e empregos contextuais da linguagem, o que chamou de jogos de linguagens. Agora, não mais o isomorfismo pensamento=linguagem real, mas o holismo prático, das conexões entre a linguagem e o mundo, mediadas pelos jogos de linguagem.   Isso permeia todo Investigações Filosóficas desde o parágrafo 7.

 

2.     Semelhanças de família. Sob esse conceito está implicado como proposta a generalidade da linguagem. (Em verdade, o que está diretamente ligado a este conceito, como a todos os que se seguirão, é a noção de jogo, de jogo de linguagem, especificamente). É-se levado em conta a comunidade de falantes, os critérios de compreensão, o contexto do uso, o vocabulário, apenas o uso do imperativo sem a possibilidade de descrição, sem semântica, a noção central da atividade gerada por regras, a recusa da identidade para privilegiar as relações e não os entes, o abandono do extensional (entidades) pelo intensional (relações). A semelhança de família é uma crítica ao essencialismo: abre mão da essência para privilegiar as condições necessárias e suficientes para a aplicação de conceitos (regras). Com o abandono da linguagem como cálculo (Tractatus) e a adoção da concepção de jogos de linguagem, que são múltiplos e variados e que estariam inseridos em formas de vida, ter-se-ia uma nova concepção da linguagem, cuja característica seria a de apresentar como única semelhança a semelhança de família. (cf. parágrafo 66, IF).

 

3.     Formas de vida. “E representar uma linguagem significa representar-se uma forma de vida” (p. 19, IF). Parece que Wittgenstein ao cunhar esse conceito o faz tomando o mundo, ou melhor, os contextos de ação no mundo, os jogos de linguagem, como a possibilidade da linguagem: ... “que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida” (p. 23, IF). É, portanto, no seio da cultura, nas formações sócio-culturais, nas atividades comunitárias, nas atividades humanas comuns, que a linguagem seria parte constitutiva dessas “ formas de vida”.

 

4.     Critério.  Esta noção, de alguma forma associada à de regra, é muito discutível. Em Uma investigação sobre Wittgenstein, M. Hintikka e J. Hintikka, escrevem: “ À primeira vista, poderia parecer que as duas noções de regra e de critério devam caminhar juntas. Um critério para um fenômeno parece fornecer ao ouvinte uma regra para o uso de uma palavra referente a esse fenômeno, e uma regra para o uso de uma expressão aparentemente dá um critério para seu uso correto.”  Inicialmente, Wittgenstein enfatiza o caráter gramatical  do que seria critério, ao tratar especificamente da dor de dente: “explicar meu critério para dizer que uma outra pessoa está com dor de dente é dar uma explicação gramatical sobre a expressão ‘dor de dente’ e, nesse sentido, uma explicação do significado da expressão  ‘dor de dente’”. (The blue book, apud Hintikka e Hintikka). Já em Investigações, chama a atenção dos autores citados, que nos parágrafos 288-90 o que servira como um critério para a dor de dente no conceito anterior, diz agora não depender de critérios: “quando a expressão da sensação, o comportamento humano está excluído... preciso, então, de um critério de identidade para ela...”(IF, p.288). “ No mesmo sentido, diz Wittgenstein, nas seções 289-290:

“Usar uma palavra sem justificação não significa usá-la sem razão”.

“Não identifico minha sensação por meio de critérios, mas uso a mesma expressão.” (apud Hintikka e Hintikka).

Wittgenstein também chama “critérios” modos característicos de um comportamento que de certa forma só poderiam ser compreendidos pelo que chamamos “convenções”.  Ao final de contas, parece que no Wittgenstein tardio tanto o conceito de critério quanto o de regra, declinam, tornando-se secundários, subordinados aos jogos de linguagem, “como um todo”.

 

5.     Regras. Foi necessário tocarmos, mesmo que tangencialmente, nos pontos ventilados acima, pois de alguma maneira fazem parte não apenas do tema em tela, mas de toda virada no pensamento de Wittgenstein e por esta razão estão mais do que implicados na nossa discussão. Como Wittgenstein chegou a estabelecer o conceito de regras em sua nova visão filosófica?  Mesmo trocando a sua antiga linguagem básica fenomenológica por outra fisicalista cotidiana pela exigência de que a linguagem deve poder ser comparada com a realidade, Wittgenstein custou a descartar-se da definição ostensiva, considerando-a ainda em 1933-1934, “exemplo paradigmático da explicação não-verbal do significado”. (Hintikka e Hintikka). Estes autores, atribuem essa persistência no pensamento wittgensteiniano às dificuldades para se encontrar “uma explicação alternativa viável da significação e da atribuição de significado”. Com efeito, Wittgenstein, no Tractatus, admitia que os elos básicos entre linguagem e o mundo eram constituídos pelas relações bipolares de denominação, sendo este o modo mais simples: mostra-se um objeto e se lhe atribui um nome, num ato de definição ostensiva. Essa persistência, todavia, tinha uma razão de ser: Wittgenstein, in The blue book, segundo Hintikka e Hintikka, julgava que “uma definição ostensiva bem sucedida poderia dar ao receptor a regra para o uso da palavra a ser definida, ou pelo menos uma parte importante dessa regra.” (itálico meu) Mais tarde, Wittgenstein viu que a adoção da linguagem fisicalista tornava impossível esse modelo, que eram necessárias outras regras na linguagem além desta. Data então, do período intermediário o retorno da preocupação de Wittgenstein com a questão das regras: “Para explicar uma palavra como “vermelho” apontando para algo dá somente uma regra para o seu uso, e nos casos em que não se pode fazê-lo são dadas regras de uma espécie diferente. Todas as regras juntas dão o significado...” “As regras constituem o significado, e não são responsáveis por eles”. (Wittgenstein’s lectures, Cambridge 1932-35, PP.3-4, apud Hintikka e hintikka). Agora declina a interpretação de que “cabia ao sujeito transcendental promover a articulação de sentido proposicional, projetando nomes sobre objetos. A nova concepção diz que a regra (ou a significação), de um lado, e o uso (ou os casos de aplicação), de outro, estão em conexão interna, numa conexão essencial que reside na gramática.” (pág. 126, Eduardo Simões). Faz-se necessário enfatizar que por “gramática”, Wittgenstein “entendia, não apenas a sintaxe, mas todas as regras que governam o uso das palavras, inclusive aquelas que fixam seus significados”. (Hacker, pág. 21). Essa nova forma de ver levanta muitas dificuldades, tanto em relação à sua antiga filosofia que via na conexão interna um elemento a priori, quanto a qualquer pretensão de sua parte de estabelecer qualquer consideração científica em suas novas asserções. Nada mais de “explicações”, sim de “descrições”: “E não devemos construir nenhuma espécie de teoria. Não deve haver nada de hipotético nas nossas considerações. Toda elucidação deve desaparecer e ser substituída apenas por descrição. E esta descrição recebe sua luz, isto é, sua finalidade, dos problemas filosóficos. Estes problemas não são empíricos, mas são resolvidos por meio de um exame do trabalho de nossa linguagem e de tal modo que este seja reconhecido: contra o impulso de mal compreendê-lo. Os problemas são resolvidos não pelo acúmulo de novas experiências, mas pela combinação do que é já há muito tempo conhecido. A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento do nosso entendimento pelos meios da nossa linguagem.” (p. 109, IF). Fomos tentados a reproduzir quase todo parágrafo, pois, a nosso ver, representa uma espécie de súmula do pensamento de Wittgenstein, dizendo respeito, sobretudo, ao seu argumento contra a linguagem privada. Esse novo procedimento é muito diferente daquele do Tractatus e da semântica tradicional de um modo geral : ensinar pressupõe, não mais apreender por definição ostensiva, mas por regras de linguagem, do que se faz habitualmente, enraizadas nas formas de vida. Agora, apesar da grande aceitação dessa nova forma de pensar, isto não quer dizer que “todos os problemas foram resolvidos”, fazendo um paralelo com o “ ideal tractadiano”. Dificuldades foram apresentadas pelos comentadores de Wittgenstein desse seu novo período: seguir regras é o mesmo que agir de acordo com regras?  Critério para ser critério precisa de um critério? Como uma regra pode determinar suas aplicações? Como seguir uma regra corretamente? Saul Kripke destaca-se entre esses comentadores, apresentando em sua obra, muito controversa, Wittgenstein on Rules and Private Language, misturando o que seria de Wittgenstein e do que seria da sua própria lavra, ganhando por isto o apelido de “Kripkenstein”. (Saul Kripke, Wikipédia, internet). No que diz respeito ao papel estrito das regras, suas colocações são instigantes.  Pelo que se pôde ver em sala, Kripke afirma que na determinação do sentido linguístico (significado) a linguagem parece ultrapassar o factual, que uma regra determinada por ela mesma leva a um paradoxo, ou ainda, como uma regra pode determinar suas aplicações? Segundo Kripke, não há resposta possível quando a questão é colocada nestes termos.  Isto levaria a aporia cética: retorno ao infinito e à circularidade. Kripke aceita o paradoxo e fornece uma solução comunitarista, ultraconvencionalista: o significado não é determinado por condições de verdade. A solução comunitarista substituiria a noção de fato pela justificação. A reação da comunidade linguística em relação ao fato constitui o próprio linguístico determinado. A formulação central de Kripke baseia-se nos paragáfos 143 a 242 de Investigações, embora as questões acima elencadas tiveram, como ponto de partida, o paragráfo 201: vou reproduzi-lo integralmente devido à sua importância:

 

“Nosso paradoxo era: uma regra não poderia determinar um modo de agir, pois cada modo de agir deveria estar em conformidade com a regra. A resposta era: se cada modo de agir deve estar em conformidade com a regra, pode também contradizê-la. Disto resultaria não haver aqui nem conformidade nem contradições.

Vê-se que isto é um mal entendido já no fato de que nesta argumentação colocamos uma       interpretação após a outra; como se cada uma delas nos acalmasse, pelo menos por um momento, até pensarmos em uma interpretação novamente posterior a ela. Com isto mostramos que existe uma concepção de uma regra que não é uma interpretação e que se manifesta, em cada caso de seu emprego, naquilo que chamamos de “seguir a regra” e “ir contra ela”.

Eis porque há uma tendência para afirmar: todo agir segundo a regra é uma interpretação. Mas deveríamos chamar de “interpretação” apenas a substituição de uma expressão da regra por uma outra.” (p 201, IF).

 

        Hacker e Baker recusam o paradoxo (na prática não há separação), fazendo uma distinção entre interpretação e ação, o que talvez, poder-se-ia dizer que, no máximo, tratar-se-ia de uma “circularidade pragmática.” E tendo em vista ainda esse  parágrafo 201, afirmam ainda que tudo pode estar de acordo com a regra em alguma interpretação; que se  pode estar de acordo pode também contradizer; que na prática deve-se diferenciar o seguir regras (relação interna) do agir segundo regras (relação externa), sendo a regra constitutiva da ação regular. Wittgenstein, como sempre, é mais elucidativo: “Eis porque ‘seguir a regra’ é uma práxis. E acreditar seguir a regra não é seguir a regra. E daí não podemos seguir a regra ‘privadamente’; porque, senão, acreditar seguir a regra seria o mesmo que seguir a regra.” (p. 202, IF). David Stern, em As Investigações Filosóficas de Wittgenstein, discute também sobre este tema, diferenciando as alternativas platonista (super-realidade), mentalista (intuição) e mecanicista (das regras). Nesta última, o âmbito factual supõe a regra como critério: uma regra não poderia determinar o modo de agir correto porque toda ação pode estar em conformidade com a regra em alguma interpretação. Peter Winch, sem afastar-se muito de Wittgenstein, faz uma leitura antropológica: o problema de seguir regras seria resolvido pelo comportamento humano comum, atentando-se para as diversas manifestações e/ou interpretações das formas de vida: transcendental (universal), relativista (cultural) e biológica.

 

 

6.     Argumento contra a possibilidade de uma linguagem privada. O que seria uma linguagem privada? Uma linguagem que só o sujeito compreenderia, ou seja, o último reduto do mentalismo numa concepção agostiniana da linguagem. Ora, uma linguagem impossível de ser compreendida por mais ninguém a referência desta linguagem teria que ser interna É, justamente contra esse ponto de vista, que Wittgenstein dá seguimento à sua obra filosófica, onde ele vai mostrar que a mente seria o efeito da linguagem e que o mental não poderia determinar o significado da linguagem pública. Aludiremos alguns pontos sobre esta impossibilidade (da linguagem privada), para, adiante, desenvolvê-los. O uso da linguagem para sensações e experiências subjetivas de um modo geral, que poderiam ser o reduto para a linguagem privada, não pode ser denotativo, expressivo, senão descritivo. Senão vejamos as diferenças entre um e outro: uso expressivo: atribuições da sensação na primeira pessoa – “traduzo a expressão natural de dor na minha língua materna”-, sendo assim, a dúvida na primeira pessoa não faz sentido, não é um saber, não tem critérios de evidência, sim de uma certeza, não é uma atribuição de conhecimento, pois não pode excluir uma alternativa, como exemplifica Wittgenstein: “Ele estava morrendo de dor, mas não sabia”. O uso descritivo, implica em distinções gramaticais, dá-se na terceira pessoa onde o saber aqui tem um critério de evidência: o comportamento de dor, p. ex., a descrição sempre pode ser verdadeira ou falsa. Desta forma, o uso da linguagem para a sensação não pode ser denotativo, pois não faz sentido uma denotação privada. (Isto está bem posto no parágrafo 283 de Investigações). P.M.S. Hacker, em seu Wittgenstein – Sobre a Natureza Humana, faz o que podemos chamar de uma exegese muito interessante, lúcida, sobre a tese wittgensteiniana da impossibilidade da linguagem privada. A consideração da mente como se ela fosse um mundo interno, ao qual seu ‘possuidor’ teria acesso, a posse privada da experiência, a privacidade epistêmica, a introspecção como um acesso privilegiado à nossa mente, como se ela fosse um “olho interno”, todos esses argumentos vão sendo desbaratados, explicitados numa linguagem clara, tudo sempre referenciado à obra de Wittgenstein, principalmente ao Investigações. É importante observar que não se trata de negar o âmbito interno: “Pelo contrário, ele (Wittgenstein) rejeitou a imagem tradicional, não por ela ser falsa e sua negação verdadeira, mas porque tanto ela quanto sua negação são contrassensos, ou pelo menos, não significam aquilo que a reflexão filosófica pretende que elas signifiquem.”( Hacker, pág. 33).

Hacker chama também a atenção sobre o equívoco de tomarmos a conexão         gramatical, ou uma exclusão de palavras, “como se a conexão e a exclusão fossem empíricas ou metafísicas, capazes de determinar a natureza essencial da mente. (Hacker, idem). Também com relação aos enunciados psicológicos e aos estados mentais há muitos mal-entendidos. Da mesma forma, estes não se baseiam em condições de observação, nem em órgãos de percepção, nem numa “faculdade perceptiva associada a um “sentido interno”, tampouco reconhece-se ou deixa-se de reconhecer o que está se passando consigo mesmo (“Eu pensei que tinha dores, mas estava enganado”), nem se pode verificar o dito”olhando-se mais de perto”, e, ainda, para enfatizar, não existe aqui conhecimento ou ignorância, certeza ou dúvida, mas apenas indecisão: ‘Não estou certo sobre o que farei’ “não significa que tenho a intenção de fazer algo, mas ainda tenho de descobrir o quê; pelo contrário, significa que ainda não me decidi.” E, como golpe de misericórdia: “esses enunciados não se baseiam em evidências, e não tem sentido perguntar, por exemplo, “Como você sabe que está com dor?”,ou “Por que você acredita que tem a intenção de ir?”( Wittgenstein, apud Hacker, pág. 40). Para estes enunciados psicológicos e os estados mentais, Wittgenstein propõe o que Hacker chama ‘uma imagem expressivista, naturalista.’ “A expressão verbal da dor é enxertada no comportamento expressivo natural que exibimos nas situações em que nos ferimos.” (Hacker, pág., 42). “A origem e a forma primitiva de linguagem é uma reação. É só a partir disto que formas mais complicadas podem desenvolver-se. Quero dizer que a linguagem é um refinamento –‘no princípio era o ato’” (Culture and Value. Wright, G. H. Von (Ed) NYMAN, H. (Colab.) Trad. P. Winch, Oxford:Blackwell, 1980. Apud Hacker, pág., 42). Wittgenstein é mais explícito quando se trata das palavras que se referem às sensações:

Como as palavras se referem a sensações? Nisto não parece haver nenhum problema; pois não falamos diariamente de sensações e não as denominamos? Mas como é estabelecida a ligação entre o nome e o denominado? A questão é a mesma que: como um homem aprende o significado dos nomes de sensações? Por exemplo, da palavra “dor”. Esta é uma possibilidade: palavras são ligadas à expressão originária e natural da sensação, e colocadas no lugar dela. Uma criança se machucou e grita; então os adultos falam com ela e lhe ensinam exclamações e, posteriormente, frases. Ensinam à criança um novo comportamento perante a dor. “Assim, pois, você diz que a palavra ‘dor’ significa, na verdade, o gritar? – Ao contrário; a expressão verbal da dor substitui o gritar e não o descreve. (p. 244, IF).

 O que parece que Wittgenstein quer marcar nesse parágrafo, é que formas primitivas de comportamento natural antecedem o aprendizado dos jogos de linguagem ( repetindo, como dizia Goethe, “no princípio era o ato”). Sobre o interno e o externo, a posição de Wittgenstein parece aproximar-se da faixa ou banda de Moebius (a faixa de Moebius é um tipo especial de superfície onde não há lado de dentro ou de fora, ou seja, nela só há um lado e uma única borda). É claro que não podemos perder de vista que para Wittgenstein as expressões “interno” e “externo”, são metafóricas e de certa forma não podem ser comparadas a formas topológicas. Mas essa comparação é interessante para mostrar o  exemplo que ele dá quando alguém tem o seu dente espetado e não vê sentido nenhum na objeção: “Isto é apenas seu comportamento – sua dor ainda está oculta”. Ou ainda, no parágrafo 203 das Investigações, na tradução de  Marcos G. Montagnoli, revista por Emmanuel Carneiro Leão, 4ª ed. Petrópolis: “A língua é um labirinto de caminhos. Você vem por um lado, e se sente por dentro; você vem de outro lado para o mesmo lugar, e já não se sente mais por dentro”. É claro que sempre existe a possibilidade do engodo, da  dissimulação, (p.ex.: alguém ter dor de dente e não manifestá-la) e isto não significa “ocultar” alguma coisa. A evidência para esses comportamentos de insinceridade deve ser buscada em outros comportamentos, mais precisamente, noutras partes do “exterior”. Wittgenstein chega a dizer, numa ênfase retórica, refutando que só indiretamente podemos saber o que se passa com os outros,  que é mais fácil conhecer o pensamento-sentimento-sensação dos outros que o nosso. Aliás, não faz nenhum sentido falar em conhecimento direto quando se trata das nossas próprias sensações e/ou sentimentos: não é certo falar, como vimos acima,  que alguém “sabe” que tem dor de dente ou naquilo que está pensando. Não se trata de inferir o que quer que seja quando observamos alguém com dor, simplesmente, nós vemos que a pessoa está sofrendo. Comportamentos de dor são critérios para “estar com dor”. Como diz Hacker: “É o comportamento de um ser humano que fornece os critérios lógicos para afirmarmos que ele está percebendo ou sentindo algo, pensando ou recordando, alegre ou triste”. (Hacker, p.51). Ainda sobre esse ponto, para arrematar, citamos Wittgenstein: “Ora, poder-se-ia dizer assim: quando se vê o comportamento de um ser vivo, vê-se sua alma”. (IF, p. 357). Isso nos leva à pergunta: o que realmente torna a linguagem pública? Antes de mais nada, podemos responder que  os jogos de linguagem são o cerne de toda semântica, tornando um contrassenso uma linguagem puramente fenomenológica, ou seja,  daquilo que nos é imediatamente dado. Essa primazia dos jogos de linguagem está estribada em que estes são conceitualmente anteriores às suas regras, mediadores semânticos entre a linguagem e qualquer aspecto da realidade. O que não quer dizer que Wittgenstein negue o que podemos chamar de vivências privadas, só que essas vivências não podem ser reportadas numa linguagem fenomenológica, mas numa linguagem fisicalista, numa linguagem cotidiana dos objetos e acontecimentos públicos diários, ou seja, necessitando de um esquema publicamente válido (“As sensações são privadas; a linguagem das sensações não pode sê-lo”). Hintikka e Hintikka são enfáticos em relação a essa questão: “Descobrimos que ele (Wittgenstein) não está negando que haja vivências privadas ou que elas exercem um papel nos nossos jogos de linguagem. Contudo, Wittgenstein está visando à sua relação com as suas contrapartes comportamentais ou qualquer outra que possa ser observada de uma maneira nova. O que é essencial, segundo ele, é que a relação das vivências privadas com as suas manifestações públicas não é contingente. Essas “manifestações exteriores” são necessárias nos jogos de linguagem que dão significado ao que dizemos sobre as nossas vivências privadas. Elas são, portanto, logicamente (semanticamente) vinculadas às próprias vivências; elas fazem essencialmente parte dos jogos de linguagem em questão. É nesse sentido que Wittgenstein está negando a possibilidade de linguagens privadas.” – itálicos, meus (Uma investigação sobre Wittgenstein, pág., 338). A preocupação principal de Wittgenstein sobre esse ponto, das vivências privadas é encontrar a necessidade de um jogo de linguagem público “para que se possa falar delas, e não a sua inacessibilidade ou inexprimibilidade”. (Hintikka e Hintikka, pág. 340). Agora, o fato de que essas vivências verdadeiramente, digamos assim, sejam privadas, mas não poderem ser ditas em linguagem, trata-se de um outro corolário de Wittgenstein: a inefabilidade de toda semântica

 

 

Conclusão. Com a sua nova visão filosófica (“Não pense, olhe”), Wittgenstein parece ter promovido a “humanização” da filosofia, ou da linguagem, ou, melhor, da filosofia da linguagem, se entendermos a modificação operada em seu pensamento como algo resultante das vivências sócio-culturais da humanidade, das formas determinadas de vidas, às quais os homens estão integrados, com os seus jogos de linguagem tendo a primazia mediando a linguagem com a realidade e não simplesmente pensar a linguagem (consequentemente a filosofia) como resultado de um cálculo lógico, de formas abstratas, matemáticas, enfim de um mundo  idealizado.

 

 

Referências

Foram consultados os apontamentos tomados em sala de aula, além dos seguintes livros para a elaboração deste trabalho: Investigações Filosóficas, Wittgenstein, L., tradução de José Carlos Bruni, Ed. Nova cultural; Wittgenstein – Sobre a Natureza Humana, Hacker, P.M.S., tradução de João Vergílio Gallenari Cuter, Ed. Unesp; Uma investigação Sobre Wittgenstein, Hintikka,  Merrill B. e Hintikka J., tradução de Enid Abreu Dobránszky,  Ed. Papirus; e Wittgenstein e o Problema da Verdade, Simões, E. Ed. Argumentum.

                           

                                          

 

 

 

                               

 

 

  

 


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